http://www.makepovertyhistory.org O Mal da Indiferença

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Sobre o Feminismo

A coordenadora do Grupo ‘Mujer y Sociedad’ e colunista do jornal ‘El Tiempo’, Florence Thomas, quer ‘entender porque existe um ódio quase endémico em relação ao feminismo e às feministas’. Para ela, mais difícil do que compreender o antifeminismo vindo de homens – ‘que durante muitos séculos gozaram dos benefícios de uma cultura patriarcal que os colocou num lugar privilegiado em relação ao poder’ –, é encontrar uma explicação que justifique o antifeminismo de muitas mulheres.
Partilhando da inquietação de Florence Thomas, confesso que me exaspera fundamente o desinteresse e a depreciação ostentados por mulheres e homens em relação ao feminismo. Encoleriza-me o enraizamento profundo de ideias erróneas e preconceitos acerca do movimento e dos seus apologistas, que pululam até nas mentes mais esclarecidas. Deploro o questionamento obstinado da existência do feminismo na actualidade ou, como outros crêem, a sua circunscrição somente a determinadas áreas geográficas. Perante tais insolências, os meus argumentos subscrevem unicamente a premência do ser, pensar e agir feministicamente, hoje e amanhã, aqui e em qualquer outro lugar. Por outras palavras, o Feminismo, enquanto movimento congregante de diversos feminismos, desempenha um papel absolutamente capital: peleja contra a cegueira, hipocrisia e indiferença que saciam o ‘senhor’ e o ‘vassalo’ do século XXI; apologiza a concessão de iguais direitos e responsabilidades entre os géneros; despoleta a mudança e o bem-estar, definhando as arestas da desigualdade e injustiça.
A maioria das mulheres ocidentais tem, hoje, a possibilidade de votar; de aceder ao sistema de ensino; de contrair casamento sem se tornar, do ponto vista legal, propriedade do marido; de utilizar contraceptivos; de viajar livremente; de exercer a profissão que pretendem; porque houve mulheres e homens que pugnaram arduamente para alcançarem tais propósito. Olympe de Gouges, Mary Wollstonecraft, Lucy Stone, John Stuart Mill, Susan B. Anthony, Elizabeth Cady Stanton, Celia Sánchez, Emmeline Pankhurst, Emily Davison, Rosa Luxemburg, Simone de Beauvoir, Anna Maria Mozzoni, Katti Anker Møller, Virginia Woolf, Betty Friedan, Kate Millett, Ana de Castro Osório, Judith Butler, Carolina Beatriz Ângelo, Naomi Woolf são apenas alguns nomes de feministas.
Num tempo em que muitos o consideram obsoleto e outros vislumbram a sua acelerada expiração, saiba-se que o Feminismo está ainda numa fase muito incipiente do seu trilho. Contam-se já três gerações de luta feminista, mas (infelizmente) a Igualdade de Género adquire contornos muito ténues nas sociedades, independentemente do seu nível de desenvolvimento. Em todos os lugares deste planeta, as mulheres são discriminadas e são-no por serem simplesmente mulheres! A luta feminista deve, por conseguinte, fazer-se com a mesma premência e intensidade que outrora até que a última limalha da segregação seja engolida, terminantemente.
Anabela Santos

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sábado, dezembro 01, 2007

Simone Veil, Mulher, Política e Feminista












“Tudo é mais difícil para elas, o que não pode ser aceite. Ainda existe demasiado para fazer para a igualdade em relação ao emprego, ao salário, a ascensão”.
(Simone Veil, Le journal du Dimanche, 28 Outubro 2007)

Aos 80 anos a política francesa decidiu escrever uma biografia: “Uma vida”. Simone Veil não teve o que se define como uma vida fácil, em Março de 1944 foi presa à Nice onde residia para ser levada com a sua família ao campo de concentração de Auschwitz. Em Janeiro de 1945 é libertada com a sua irmãs, únicas sobreviventes da sua familia.

Simone, lutadora, conseguiu ao longo dos anos se tornar numa das figuras políticas mais queridas de França. Não gosta de teorias para ela foi a vida que a tornou feminista. Acredita na paridade, mesmo se isso deve passar pela via de quotas. Para ela existe de facto diferenças entre o homem e a mulher, desta forma eles se complementam, mas essas diferenças não podem conduzir à superioridade do sexo masculino.

Na questão da contracepção livre autorizada em 1967, Simone Veil teve um papel fundamental pois foi ela que impulsionou o reembolso pela Segurança Social. No entanto foi com seu projecto, enquanto ministra da saúde, sobre a Liberalização do Aborto em 1974 que ganhou mais reconhecimento. O projecto votado em Assembleia foi um dos que suscitou mais reacções negativas.

No seu livro, “Os homens também se recordam”, Simone Veil explica o seu projecto de lei e como foi debatido na Assembleia. “Os vários discursos e os debates que sucederam em França revelaram-na ao país como uma mulher corajosa e determinada que lutou pela dignidade das mulheres como também pelo interesse da Nação, perante políticos hostis mesmo do seu próprio partido”.


Sylvie Oliveira

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terça-feira, outubro 23, 2007

Julieta Gandra: "a transgressora, feminista e anticolonialista"

Julieta Gandra viveu 90 anos de ousadia. Desafiou regras, desafiou convenções, desafiou poderes. Foi uma referência para gerações de jovens de esquerda. Viveu a política com alegria e convicção e por uma causa: Angola
"Olhe! Em vez de estar aí parado ajude-me a carregar os embrulhos!" Sem dar tempo para ao pide, que lhe vigiava a casa, reagir, Julieta Gandra despejou os muitos pacotes com que chegara ao nº 7 da Ilha do Príncipe, em Lisboa, e obrigou assim o agente da polícia política a subir até ao 4º-B, carregando as suas compras em silêncio. Esta história desconcertante é recordada, entre sorrisos, por Diana Andringa, que, na segunda metade dos anos 60, morava no 5º-A e que conviveu com Julieta Gandra, médica, oposicionista, militante feminista e anticolonialista e, sobretudo, transgressora, falecida a 8 de Outubro, em Lisboa, com 90 anos.Nascida a 16 de Setembro de 1917, em Oliveira de Azeméis, Maria Julieta Guimarães Gandra era filha de Aurora e Mário Gandra, solicitador e pequeno comerciante, e tinha três irmãos, Fernanda, mais velha e ainda viva, Ângela, e Hernâni, arquitecto que militou no PCP. Julieta cursou medicina, em Lisboa, onde conheceu Ernesto Cochat Osório, oposicionista e poeta, natural de Angola. Depois de casados e de ter nascido, em 1944, o seu filho Miguel (que não quis colaborar neste trabalho), rumam de barco a Luanda. Julieta é então especialista em medicina tropical. Irá interessar-se por obstetrícia e ginecologia e será ela a introdutora do parto sem dor em Angola. Médica das jovens brancas da elite de Luanda, dá também consulta a mulheres pobres, brancas e pretas.Em Luanda, priva com intelectuais não afectos ao regime e frequenta o Cine-Clube e a Sociedade Cultural de Angola. O que fora uma aproximação à oposição na faculdade torna-se ligação ao PCP em Angola. (Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, III vol. pp. 517-526). Em meados dos anos 50, participa na formação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Vem de então a sua amizade com Agostinho Neto, Lúcio Lara, Paulo Jorge e Arménio Santos.Durante a década e meia que vive em Angola, viaja. Vem a Lisboa. E, em 1958, depois de visitar, em Bruxelas, a exposição mundial, ruma à União Soviética. De regresso a Luanda, passa por Paris e Lisboa e, a sua sobrinha Ana Rita Gandra Gonçalves, ainda hoje se lembra das discrições de um espectáculo de Ives Montand e os discos de Léo Ferré que distribui pelos mais novos.
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